segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Minha mãe

Todos os dias, Dona Maria telefona para mim de manhã, para saber se eu passei bem à noite, se já me levantei, se não estou atrasada, e todas estas preocupações que as mães têm com a gente. Desde que me mudei para Brasília, há sete anos, nos falamos quase todos os dias. Recentemente, ela usou o holter (aparelho para monitorar o coração), e não podia falar ao celular; ficamos um dia inteiro sem nos falarmos, e eu quase morri de saudade dela.

Antes que eu nascesse, ela desejava ter uma menininha para pentear o cabelo dela; ela teve a menininha, mas quase não ganha penteados...

Ela nasceu no interior das Minas Gerais, em Turmalina. Sua infância foi às margens do rio Araçuaí, e ela tem muito boas histórias sobre sua família, principalmente a sua mãe e minha avó, Julia. Foi mamãe do meu irmão Donizete e do meu irmão Osvaldo (Vadinho) ainda na adolescência,

Por conta dos caminhos que a vida segue, ela veio trabalhar em Brasília, e meus irmãos foram trabalhar em Barrinha, quando Donizete tinha 18 anos, e Vadinho, 15.

Aconteceu que, depois de oito meses trabalhando em Barrinha, e onze dias depois de seu aniversário de 16 anos, Vadinho foi vítima de um acidente na usina em que trabalhava, e morreu.

Donizete, então, veio buscar minha mãe em Brasília, e ela se despediu de seus amigos daqui. Foi muito triste, porque ao mesmo tempo em que perdia seu filho, deixava para trás também seus amigos. Ela foi pensando em resolver os problemas na usina, que demandavam sua presença, e logo voltar para Brasília, mas a burocracia mudou seus planos. Assim, ela teve que se estabelecer em Barrinha, e trabalhar em Ribeirão. 

Naquela época, Barrinha era uma cidade muito pequena, sendo a dona Zilda, "seu" Jamil e "seu" Fraim pessoas muito conhecidas, que tinham uma padaria/mercearia/bar, pertinho do alojamento em que o Donizete morava. Fraim e Zilda eram irmãos, e Jamil era o marido da Zilda.
Eis que dona Maria alugou uma casa nos fundos da padaria da dona Zilda, conheceu o "seu" Fraim (o portuguesão de olhos verdes, como ele se auto-intitulava, cheio de orgulho), se apaixonaram, namoraram, casaram, e se tornaram pais da menina mais linda do mundo: eu. É claro que esta parte da menina mais linda do mundo é coisa do meu pai, mas eu acredito nele...

Minha mãe gosta muito de contar as histórias que viveu aqui em Brasília, e eu acabei me apaixonando pela cidade, muito antes de conhecê-la. Quando tive oportunidade de trabalhar aqui, aceitei imediatamente, tendo a certeza de que seria muito feliz aqui, como de fato sou. No entanto, minha mãe e minha filha ficaram morando em Barrinha, e a saudade que eu sinto delas é muito forte, mas eu vou administrando, procuro ir passar um final de semana por mês em Barrinha. Agora, então, que minha filha é mamãe do João Miguel, eu conto os dias ansiosamente para ver meu bebê, quer dizer, meu netinho...

A chegada do João Miguel deixou minha mãe tão feliz, que é possível sentir nas suas palavras o amor que ela tem por ele. Quando ela liga para mim, sempre conta alguma travessura nova que ele aprontou, alguma palavrinha nova que ele disse. Ela fica toda feliz porque foi a primeira pessoa que o viu engatinhar e andar. Uma das coisas mais fofas que ela já disse foi: "meu coração era dos médicos do Hospital das Clínicas, agora é do João Miguel".
Esta é uma das fotos do ensaio para o aniversário de 1 aninho do João Miguel, com minha mãe bagunçando com ele.



Ela adora ver novelas (não todas), e eu adoro quando ela liga para falar sobre a novela, para trocarmos impressões sobre o enredo, etc. É como se eu estivesse sentada na sala, ao lado dela.
Também adoro os domingos; é quando ela vai à igreja, e quando chega, liga para me contar tudo o que aprendeu naquele dia. 
Sempre que ela liga, ou eu ligo para ela, conversamos por horas (obrigada, Claro), e quando terminamos a ligação, ela me diz: "fica com Deus", ou então, "dorme com o Papai do Céu"; quando estou em Barrinha, na hora de voltar para Brasília, ela diz: "Deus te acompanhe". Para mim, não existem palavras de bênção mais lindas do que estas.

Minha mãe é a coisinha mais fofinha que Deus colocou no mundo, e eu a amo com todo o meu coração.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Ao João Miguel

Este texto foi escrito em 26/09/2014.

Ao João Miguel, meu pequeno grande tesouro, alegria imensurável com que Deus presenteia a nossa família:

Por enquanto, só conhecemos o contorno dos seus traços, o barulho do seu coraçãozinho, e adoramos sentir seus movimentos na barriga da sua mamãe.
Mas daqui a cinco dias, nós finalmente vamos ver seu rostinho, quando você será apresentado a um mundo novo. Vamos tocar suas mãozinhas, vamos colocar você no colo, e vamos te dizer um pouquinho como te amamos, porque é muito, não cabe em palavras... Vamos te contar como nos sentimos felizes e abençoados porque você vem para nossa família... E vamos agradecer ao Senhor Jesus pelo milagre da vida que se renova, e pela dádiva que Ele nos dá, quando nos permite uma alegria tão grande, que é estar com você, nosso pequeno João Miguel.

Você é minha pequena jóia, é meu grande tesouro. Eu amo você, e estou aguardando ansiosamente pela hora de ver você.

Daqui a cinco dias, se Deus quiser, vou dizer a você: seja muito bem-vindo ao mundo, meu netinho. Que o Senhor te abençoe e te guarde, e que você seja feliz, como nós somos felizes porque somos agraciados com a sua presença.

Com todo o amor que transborda o nosso coração.
Sua avó e sua mamãe.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Mestres do Renascimento

Este texto foi publicado em 07 de janeiro de 2014, após minha visita à Exposição "Mestres do Renascimento". 

Mestres do Renascimento


Sábado, depois de três horas na fila, assisti à exposição "Mestres do Renascimento", no CCBB. Foi maravilhoso ver aquelas obras, contemplá-las e pensar sobre elas. O encantamento que a exposição me trouxe fez valer cada segundo passado na fila. Minha vontade era de ficar ao lado daquelas obras pelo menos por mais três horas, pois cada uma delas tinha uma mensagem a ser transmitida, um encanto a ser descoberto.


Enquanto observava as obras de arte, ouvi o seguinte comentário, repleto de admiração, de um senhor à sua esposa: "olha, esta pintura tem 500 anos"; então, em um segundo, passaram várias cenas, várias ideias pela minha cabeça - adoro esta capacidade que a gente tem de pensar em mil coisas em uma "fração de segundo", como diz minha mãe - e é sobre estas ideias que eu gostaria de escrever.


Entre os pensamentos, estava um que sempre aparece: a efemeridade da vida em contraponto à atemporalidade de nossas atitudes, que deixam nossa marca para além da nossa vida física. É fantástico pensar que pessoas que viveram 50, 100, 500, 1000, 3000 anos antes de nós, como os patriarcas bíblicos, os filósofos gregos, os Navegadores, os Renascentistas, entre tantos outros, deixaram sua marca registrada na História, e serão lembradas por mais 50, 100, 500, 1000, 3000 anos.

Porém, ao lado de figuras que se tornaram conhecidas por todos, e que "entraram para a História", estão aqueles que não são conhecidos por muitas outras pessoas, mas que também deixam sua marca no mundo, e fazem diferença na vida daqueles com quem convivem - minha filha mais nova teve uma existência terrena muito curta, de apenas onze meses, mas todas as pessoas que a conheceram se sentiram mais felizes somente porque viram seu sorriso sincero de criança - por isso, eu acredito que faz parte da nossa missão na Terra vivermos de forma que possamos acrescentar coisas boas às pessoas que nos cercam; assim, acredito que a gentileza, a doçura, a empatia estão entre as atitudes que devemos cultivar, para que outras pessoas se sintam felizes somente com nossa presença.
E esta foi apenas uma ideia que passou pela minha cabeça quando ouvi o comentário daquele senhor...

A outra ideia me levou de volta à Faculdade de Letras, concluída há treze anos... foi um episódio em que minha "megalomania" se aflorou. Estávamos estudando a Semana de Arte Moderna, e eu fiquei maravilhada com tudo aquilo que estava lendo sobre os Modernistas; assim, enquanto estávamos na biblioteca (eu e mais duas colegas), preparando nosso material para o seminário que apresentaríamos na semana seguinte, me absorvi tanto na leitura, que acabei verbalizando um pensamento que me ocorria enquanto os Modernistas me seduziam: "nossa, eu queria fazer algo assim, que venha a ser lembrado por todo mundo, mesmo que eu já não esteja mais aqui". Este era um pensamento sincero, mas provocou risos, ou melhor, gargalhadas das minhas amigas (elas até esqueceram que a gente estava na biblioteca). Devido à reação das meninas, eu procurei não pensar mais nisso, porque me senti uma idiota, mas estas palavras de vez em quando voltam a aparecer nos meus pensamentos. Não sei se é medo de ser esquecida, ou se é narcisismo, ou se é simplesmente vontade de fazer alguma coisa interessante... E assim, acabei me lembrando do Chico Anysio, que disse em uma de suas entrevistas que ele não tinha medo de morrer, mas tinha pena de morrer.


E assim, outro pensamento me ocorreu, principalmente porque as obras apresentadas, em sua maioria, retratavam cenas bíblicas: eu sempre acreditei que existe outra vida depois desta vida. Acredito que Deus preparou uma morada eterna para os seres humanos, e que esta vida presente é somente uma passagem, um estágio, um aprendizado.


A obra que mais me chamou a atenção foi "Adoração dos Pastores", de Lorenzo Lotto. A mãozinha do Menino Jesus tocando a ovelhinha me fez chorar de emoção. Eu não sei dizer se a arte tem "funções", mas penso que, se tiver, uma delas é esta: despertar emoções em quem a contempla.


O Papai e seu Benzinho

Hoje, 24 de fevereiro, completam-se dez anos sem meu papai.
Este texto foi escrito há algum tempo, mas eu gostaria de homenagear meu pai de novo com este registro da nossa história.

Ele nasceu em Jaboticabal, dia 25 de abril de 1936, neto de imigrantes portugueses e italianos; sempre contava muitas histórias sobre os seus avós, seus pais e seus irmãos, e os amava com todo o seu coração.

Quando ele tinha 42 anos, nasceu o seu maior tesouro, a sua filha, e eles viveram o amor mais lindo que poderia existir. 
Tudo o que ela aprendeu de mais bonito foi com ele. Ele mostrou para ela a beleza do amanhecer, dizendo: "olha, Benzinho, o céu vai clareando, ficando rosado, depois amarelinho, até ficar completamente iluminado pelo sol"; ela adorava acordar cedo só para contemplar o nascer do sol com ele. "Benzinho" era a forma carinhosa que ele tinha para falar com ela. 

Quando ela tinha três anos de idade, ele ensinou as primeiras letras para ela, primeiro o seu nome, depois as outras palavras, os textos; seu maior orgulho era dizer que ela lia jornal aos três anos, porque ele havia ensinado.

Ele também ensinou a ela que Deus é o Pai, e Ele é tudo o que temos de importante na vida. Ele dizia: "não importa o que acontecer, não esquece de Deus". Ele adorava esta foto, que eles tiraram no dia em que ela fez três aninhos:

Entre as muitas coisas que eles gostavam de fazer para se divertir, estavam as palavras cruzadas, as sessões de poemas e de violão. Eles passavam horas recitando poemas de Camões (para tão longo amor, tão curta vida); ele sabia o Primeiro Canto de "Os Lusíadas" de cor, e ela adorava ouvir. O som do violão era o mais belo que ela conhecia, e todos os dias, ela pedia para ele tocar e cantar "Chega de Saudade", "Rosa", "Chão de Estrelas", e a preferida, a mais linda de todas, "Carinhoso". O brilho no olhar dos dois era a coisa mais linda de se ver.

Ela deu a ele duas netinhas, que eram suas princesinhas. Infelizmente, a mais nova faleceu, o que deixou o avô muito triste, mas ele dizia o seguinte: "é muito triste perder a minha netinha, mas muito mais triste é ver você chorando, benzinho... sua tristeza corta o  meu coração".

No dia 24 de fevereiro de 2006, às 10h30, ela estava trabalhando, e ele ligou para ela, dizendo que estava se sentindo mal. Ela perguntou a ele se ele queria ir ao médico, mas ele disse que não precisava, e a continuação da conversa dos dois foi mais ou menos a seguinte:
- Benzinho, eu já disse que te amo?
- Já, sim, papai... mas fala de novo?
- Eu te amo, benzinho...
- Eu também te amo, papai.
Ele dizia para ela que ouvir "Papai" de seus lábios era mais lindo do que qualquer música, e esta era a palavra mais bonita que ele conhecia.

Algumas horas depois, seu primo ligou para ela, dizendo que ela teria que ir embora para casa, por causa do seu pai.
Na verdade, seu pai havia começado a almoçar, se sentiu mal, interrompeu o almoço e foi se deitar. Depois que ele dormiu, seu coração parou de bater, e ele acordou no Céu.

Hoje, após dez anos (o tempo, implacável...), sua filha ainda se sente como no momento da notícia: "como eu vou viver o resto da minha vida sem ele?"... mas as lembranças dos 27 anos em que viveram juntos é o que conforta um pouco o seu coração.

Às vezes, eles se encontram nos sonhos dela. Ela acredita que Deus permite que seu Papai venha passear um pouquinho nos seus sonhos, para eles acalmarem um pouco a saudade. Nos sonhos dela, ele sempre está muito bonito, dizendo que mora agora em um lugar lindo, e que é muito feliz. 

Que assim seja!

Ao bebê do meu bebê

Este texto foi publicado em 15/02/2014, e fala um pouco do que eu senti quando soube que minha filha estava esperando um bebê. Foi o primeiro texto dos muitos que eu já escrevi para o João Miguel, foram as primeiras palavras de muitas que eu já disse para ele, meu pequeno Nino. Foram os primeiros momentos lindos de muitos que eu tenho vivido com este bebê que se tornou o meu grande amor.

Ao bebê do meu bebê

Minha filha tem quase 21 anos, mas eu adoro falar que ela é meu bebê. Adoro mordê-la, como a gente faz com os bebês, e ela fica muito irritada comigo (mas adora...).
Mas agora, ela me deu uma notícia que mexeu com as minhas emoções, de uma maneira tão intensa, que eu nem imaginava que fosse possível: ela vai ser mamãe... meu bebê vai ter um bebê.
E é para  este bebê, que ainda não sabemos se é menino ou menina, mas já amamos com todo o nosso coração, que eu quero dizer estas palavras:

Querido bebê,
todos na nossa casa estamos muito felizes porque você vai chegar.
Ainda não sabemos se você é uma menina ou um menino, mas já sabemos que seu nome será Laura ou João Miguel. 
Você é ainda tão pequenino... segundo as nossas pesquisas, você é do tamanho de uma lentilha, mas o nosso amor por você já é muito intenso. Eu estou completamente monotemática, só falo de você o tempo todo; estou extremamente feliz porque você está chegando, e quero que todos os meus amigos saibam que você é o bebê mais amado do mundo!!!!

Você é o grande sonho da sua mãe desde quando ela era bem pequena e brincava de casinha.
Quando o médico disse a ela que talvez você demorasse muito, muito, muito tempo para chegar, ela ficou muito triste. Mas não perdeu a fé, e pediu muito a Deus e Nossa Senhora para que eles enviassem você para ela. 
Deus e Nossa Senhora, então, atenderam ao pedido dela, e permitiram que ela experimentasse as alegrias de ter você crescendo na barriga dela, de ver as mudanças no corpo, nos hábitos alimentares... a gestação dela, ou seja, a sua vinda, está sendo comemorada como o acontecimento mais importante da nossa vida.

Você é o bebê do meu bebê, e eu te amo desde o momento em que ela me ligou, chorando de felicidade, dizendo que você está chegando. Hoje, senti uma emoção muito grande quando dei um beijo na barriga dela, e assim, beijei você.

Seja muito bem-vindo, bebê do meu bebê! Você é motivo de grande alegria para nossa família!

Deus, muito obrigada por esta alegria!