domingo, 18 de setembro de 2016

Cadê a empatia?

Hoje, o olhar é para a empatia, ou melhor, para a falta dela, e nasceu de uma conversa com a amiga Vanessa.

Falávamos sobre o falecimento do ator Domingos Montagner, quando Vanessa me disse que estava indignada com uma piada que tinha recebido no celular, e que eu também tinha recebido. Nós recebemos esta piada de várias pessoas diferentes, várias vezes... esta e outras piadas.
Além de piadas, os perfis da atriz Camila Pitanga nas redes sociais estão sendo invadidos por "haters", termo usado na internet para designar aqueles que atacam virtualmente outras pessoas, fazem comentários cheios de ódio, incitam a violência; estes "haters", como disse, estão destilando teorias sobre a "culpa" que a atriz teria na morte do amigo. Não vou falar sobre o conteúdo das piadinhas e das "teorias de culpa" repetidas por internautas idiotas.

Outra coisa tão absurda quanto as teorias e as piadinhas são as postagens de pessoas que se dizem religiosas, dando conta de que a morte do ator teria sido provocada pelo teor de religiosidade (ou espiritualidade) abordado na novela, quando os índios resgataram o personagem Santo, que havia sofrido um atentado, e fizeram rituais para que ele voltasse à vida.
A propósito, os índios fizeram uma linda homenagem ao ator, a qual foi duramente criticada por uma grande parte de pessoas que se dizem religiosas. A homenagem, que me fez chorar, é a seguinte:
"Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo hoje e se tornou um novo protetor do Rio São Francisco, que estava tão esquecido. Esse rio não pode morrer. A novela contou todos os mistérios do rio e esse foi mais um deles. Ele se tornou um ser de luz, porque a água não tira vida e sim dá a vida. Fiquem felizes pela alma dele, pois quando ele entrou no rio, se despediu do corpo e alma. Nasceu em um mundo melhor. Algum dia, os brancos vão entender isso. Ele está bem e, agora, é um protetor do Rio São Francisco."
Eu vi um vídeo no Youtube (não vou colocar o link, porque não quero fazer propaganda do vídeo), produzido por um pastor que nunca viu a novela, mas se deu ao trabalho de pesquisar o enredo para embasar suas teorias de "castigo"; até o fato de o personagem se chamar "Santo dos Anjos" foi criticado. O tal pastor também diz, a certa altura do vídeo, que não está querendo insinuar nada, mas... e diz uma frase que eu também me recuso a repetir. Além das teorias do pastor, os comentários dos internautas me deixaram muito assustada, porque revelam um nível extremo de falta de respeito, falta de empatia, intolerância religiosa e tudo o que há de mais horrível nos territórios virtuais (e reais).

Jesus disse a seguinte frase, registrada em Mateus 7:12: "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas." Mesmo para quem não segue, não acredita em Jesus, esta é uma regra básica de convivência... seria maravilhoso se todo mundo pensasse assim, não? Pois foi exatamente isto que me deixou assutada: pessoas que dizem seguir a Cristo e acreditar em seus ensinamentos estão aí pela internet falando mal dos outros, semeando intrigas, plantando discórdia. Será tão difícil se colocar no lugar do outro? Será tão difícil pensar: "se fosse meu pai que tivesse morrido desta forma, eu faria piada?"; "se minha mãe tivesse sobrevivido a um acidente que matou seu amigo, eu iria dizer que ela foi culpada?"; "e se fosse eu no lugar da Camila, iria fazer piada de mim mesma?".

Este caso é um exemplo, somente um, da onda de maldade que está tomando conta do nosso mundo. O que podemos fazer para conter esta onda?

sábado, 10 de setembro de 2016

As minhas cidades

Quando a Iara era criança, uma novela era embalada pela música O Bem do Mar, com a voz perfeita do Dorival Caymmi. Iara ficava cantarolando "um pescadô tem dois amô, um bem na terra, um bem no mar", ainda sem saber falar direito, e era tão lindinho...
https://www.youtube.com/watch?v=F1hA_ltXgZg

Outro dia, eu me lembrei desta música quando postei no Facebook que não moro em Barrinha há oito anos, mas minha família toda está lá, tenho amigos muito queridos, ainda voto lá. Senti que meu coração tem dois "amô": um bem em Barrinha e um bem em Brasília.

Barrinha é o lugar onde estão minhas raízes. Não nasci lá, assim como muitos barrinhenses; nós não temos hospital na cidade, tivemos somente por um breve período, então os moradores de Barrinha nascem em Jaboticabal (como eu), Sertãozinho ou Ribeirão Preto. Mas somos Barrinhenses!

Brasília é um lugar mágico, que sempre esteve na minha vida. Minha mãe morou aqui na década de 70 e, tendo ido para Barrinha, conheceu aquele que se tornaria o seu grande amor, meu papai. Eu cresci ouvindo as melhores histórias sobre esta cidade em que minha mãe tinha vivido. Quando eu tinha três anos, minha mãe viajou comigo para cá, ficamos quase um mês; apesar da minha pouca idade à época, consigo me lembrar de algumas cenas, tanto que, vinte e sete anos depois, quando cheguei e vi o lago Paranoá, tive aquela sensação incrível: "conheço este lugar, já passei por aqui".

Durante muito tempo, eu dizia que estava indo "para casa" quando viajava para Barrinha, porque ainda não me sentia pertencente a Brasília. Hoje, eu sinto que pertenço às duas. Brasília e Barrinha são "minha casa", e esta sensação de pertencer a duas casas, a duas cidades que se complementam no meu coração, é maravilhosa!