quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Metade da Idade da Minha Mãe

Neste ano, eu completo a metade da idade da minha mãe, a idade que ela tinha quando eu nasci, 39 anos.

O dia do meu nascimento foi um dia de sofrimento e alegria para minha mãe. Na verdade, o meu nascimento deveria ter ocorrido até o dia 10 de agosto, mas já era dia 22, e ela não entrava em trabalho de parto.
À noite, ela não conseguiu dormir, e sentia os meus movimentos muito desordenados em sua barriga, como se eu quisesse "subir" até seu coração. Mas ela não sentia dores, então achava que estava tudo bem.

Ao amanhecer, na quarta-feira, ela estava se sentindo bem e foi cuidar dos afazeres da casa. Eram 6h da manhã, e ela estava lavando roupa quando meu tio Joel e minha tia Dinah, dois irmãos do meu pai, chegaram à nossa casa. Eles foram anjos que o Senhor Deus enviou para nossa vida naquele dia.
Tia Dinah, quando viu minha mãe pendurando roupas no varal, perguntou por que ela ainda estava ali, com aquele barrigão, lavando roupa (à mão), e por que não tinha ido ao hospital, por que o bebê não tinha nascido ainda. Minha mãe disse que não estava sentindo as dores do parto, e que estava se sentindo bem.
Meus tios não se convenceram de que estava tudo bem, e levaram minha mãe ao pronto-socorro (naquela época, não havia hospital em Barrinha, como ainda não há). Quando o médico a examinou, recomendou que ela fosse levada imediatamente ao hospital, em Jaboticabal, pois já havia "passado da hora" do bebê nascer.

Chegando ao hospital, os médicos detectaram que a pressão arterial da minha mãe estava muito alta. Até então, ela não sabia que era hipertensa, e ainda não sabia sobre a doença de Chagas.
Seria necessário fazer uma cesárea, mas primeiro precisava abaixar a pressão.

Quando eles examinaram o estado do feto (eu), não conseguiram ouvir seus batimentos cardíacos, não percebiam seus movimentos, não notavam sinais de vida, e deram o bebê como morto. As palavras do médico para minha mãe foram "o seu neném está morto, agora eu vou tentar salvar a senhora."
Sim, ele disse "tentar".
O estado dela era muito grave, e o risco era muito alto. Quando a minha mãe me conta esta história, ela fala da dor que sentiu quando o médico disse que seu bebê estava morto. Fazia pouco tempo que meu irmão havia morrido, e a vida da minha mãe também estava em risco. Ela costuma brincar que, se tivesse morrido, iria chegar no Céu e perguntar para Jesus: "cadê o neném?", e Jesus iria dizer que o neném ficou.

Então ela foi levada à sala de cirurgia para passar por um procedimento de risco. A anestesia  não fez efeito, e ela precisou ser sedada.

Como ela estava dormindo, não viu meu nascimento, não viu que o bebê dado como morto estava vivo, que era uma menina, e que a primeira pessoa da família que me pegou no colo foi minha prima Eiko, filha da tia Dinah.

Após longas horas, minha mãe acordou da sedação, e minha santa tia disse que sua criança era saudável, forte, cabeluda (e linda... depois de adulta ficou super modesta, mas não tinha como ninguém prever isso).

Acho que eu já tinha uns três meses nesta foto:

Quando Tia Dinah ligou para dar a notícia ao meu pai, ele e meu irmão foram "bebemorar". Os dois ficaram bêbados... Imaginem, nenhum dos dois gostava de bebida, e foram beber para celebrar meu nascimento. Devem ter ficado bêbados com um copo de cerveja...

Hoje, especialmente nesta data em que eu completo a metade da idade da minha mãe, eu agradeço a Deus por ter poupado a nossa vida, por ter nos salvo da morte naquele dia. É como se eu tivesse nascido duas vezes, é como se minha mãe tivesse nascido de novo.
Agradeço a Deus por ter enviado seus anjos, meu tio Joel e minha tia Dinah, que levaram minha mãe até o hospital, que cuidaram dela. Agradeço a Deus por sua presença em todos os momentos da nossa vida, nas nossas alegrias e tristezas. Agradeço a Deus por permitir que eu nascesse, por poupar a vida da minha mãe, me dar o meu pai, me dar uma família tão grande, tão amorosa e tão maravilhosa, e ainda me presentear com amigos maravilhosos.

Obrigada, Senhor, por todos os dias!

"Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe.
Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.
Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido* nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.
E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles!" (Salmo 139: 13-17)

*Eu amo pensar na ternura com que Deus entretece o bebê no ventre da mãe, formando suas mãozinhas, seus pezinhos, seu rostinho...





Um comentário:

  1. Metade da idade da sua mãe com rostinho de 15...

    Minha escritora favorita ❤

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